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As permissibilidades que a vida nos impõe

VIVÊNCIA

Laudir Dutra - Redação Publicado em 03 de fevereiro de 2026 às 12:33 Ver todas as matérias →
Fonte: Divulgação Foto: Laudir Dutra
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Quando crianças temos sonhos, olhamos para o horizonte imaginando o que poderia estar lá à nossa espera, ouvimos dos mais velhos o que pode e o que não pode fazer, uma espécie de cartilha para a vida da qual nada sabemos. O que temos são só imaginações e suposições vãs.
Ainda não tão longe do meu imaginário estão ali sentados, meus pais, avós, tios, primos, todos envoltos com as coisas do nosso cotidiano, numa época que parecia que não havia pobreza, inconformidades, relações perigosas, apenas uma linha tênue entre aquilo que podíamos fazer, que seria possível fazer e aquilo que talvez num futuro bem remoto, teríamos ao nosso alcance.

Viajar de ônibus pela primeira vez

Esse dia um dia teria que chegar, viajar de ônibus. Chegou aquele gigante alto, com três, quatro lances de escadas. A porta se abriu, entramos com olhares furtivos e sonhadores de que aquilo era a coisa mais encantadora que a vida poderia nos proporcionar.
Ainda observávamos a poeira deixada pelo veículo como se quisesse esconder ou apagar o que estávamos deixando para trás, para não termos ilusões de um dia voltar. Era um misto de saudades sem ter saído e um sentimento ainda mais forte mas que ainda não havíamos sentido, o DESAPEGO.

Nosso lugar, meu lugar, meus familiares. O que estaria passando na cabeça deles, do meu pai, minha mãe. Sair do campo nunca talvez devesse ser possível ou permitido, vejo isso agora quando saio por aí sem rumo com meu filho como co-piloto, recordações me vêm à mente, ele me pergunta e eu, como um eterno saudosista, pai zeloso que só quer o seu bem, respondo sem esquecer os detalhes mais inesquecíveis, mais ricos.

A poeira deixou saudades

A urbanidade invadiu o campo, as estradas, os pássaros, as matas, os rios, nada está igual, eu não me reconheço mais, aquela vontade enorme de vir para a cidade, conhecer o futuro, o progresso me faz eu ter pena de mim mesmo e me culpo às vezes, mas uma pergunta ecoa na minha cabeça como um mantra: Porque fui deixar a minha vida para trás?
Na poeira que o ônibus deixou lá atrás talvez tenha ficado junto fragmentos de uma corrente que nunca mais seguiu seu curso, um elo aqui, outro ali e outro que nem sei onde deixei cair.

Voltar para onde parei de sonhar

Os retornos da gente às antigas paradas, aos pontos de ônibus cobertos pelos arbustos de vegetações singelas, de pontos sem paredes, de rios sem poluição, de mares sem garrafas pets, de cachorros sem correntes, de galinhas com pintinhos no pátio, de passarinhos sem gaiola. Ai, receio demais pelo meu futuro, do meu filho, dos meus netos. Parei no tempo e isso de alguma forma foi bom, pois quando o tempo chega nas nossas vidas a certeza de que vivemos o suficiente para contemplar e recordar. Os anos vão passando, não temos mais calos nas mãos, sinais das nossas lutas, dos nossos enfrentamentos das demandas do nosso dia a dia, ao mesmo tempo isso frustra, pois queremos ENVOLVIMENTO com tudo o que nos faz feliz.
Tomara que quando chegar a minha hora (que vai demorar um tempo ainda), eu possa ter a companhia ao menos dos meus momentos bons e dos meus sonhos por uma vida justa e verdadeira. Acho que agora eu cheguei exatamente no lugar onde eu queria estar, Para dentro de mim mesmo.

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