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É TETRA | LULA VENCE ELEIÇÃO E ESTÁ REELEITO PARA MAIS 4 ANOS DE MANDATO

Com 51,76 dos votos válidos, Luis Inácio Lula da Silva derrota o filho do ex-presidente Bolsonaro

Laudir Dutra - Redação Publicado em 25 de outubro de 2026 às 21:47
É TETRA | LULA VENCE ELEIÇÃO E ESTÁ REELEITO PARA MAIS 4 ANOS DE MANDATO
Fonte: Luisa Carvalho - Repórter JOTA Foto: Ricardo Stuckert
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Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25/10) para seu quarto mandato como presidente da República. Com 98% das urnas apuradas, o petista recebeu 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% do senador Flávio Bolsonaro (PL), e continuará no Palácio do Planalto até 2030.
É TETRA | LULA VENCE ELEIÇÃO E ESTÁ REELEITO PARA MAIS 4 ANOS DE MANDATO
A votação foi marcada pela confusão nas últimas horas, com relatos de eleitores enfrentando dificuldades de locomoção em diversas cidades do país. Isso levou a uma inédita prorrogação do horário de votação em duas horas após decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele atendeu a pedido da campanha de Lula, que pediu a prorrogação em todo o país.

Após dúvidas quanto às condições de cumprir a decisão em meio ao fechamento de urnas no horário original das 17h, Zanin esclareceu que a decisão valia apenas para aquelas seções em que as urnas ainda estavam abertas. A incerteza cresceu devido ao silêncio do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques.

O resultado representa uma virada história. O presidente ficou atrás no primeiro turno, com 45,16% dos votos válidos, enquanto o senador obteve 47,03%, com cerca de 2,2 milhões de votos a mais. Nunca antes um candidato à frente no primeiro turno havia perdido no segundo.

A vitória encerra a eleição presidencial mais disputada da história. Também transforma Lula no primeiro presidente brasileiro eleito democraticamente para quatro mandatos. O resultado consolida a trajetória política iniciada pelo petista nas greves dos metalúrgicos do ABC Paulista, no fim dos anos 1970, e que já atravessou quatro décadas de disputas eleitorais. Neste pleito, Lula repetiu a dobradinha da última eleição e será reconduzido ao Planalto junto com o seu atual vice, Geraldo Alckmin (PSB).

Flávio derrotado em fôlego final da campanha petista
A virada de Lula combina os desgastes enfrentados por Flávio e a reação da campanha petista após terminar o primeiro turno atrás do senador. Nas últimas semanas, o presidente intensificou a mobilização nas ruas e nas redes sociais. A militância investiu no incentivo ao voto da população que não compareceu às urnas no primeiro turno.

Um dos eixos da reação petista foi a mobilização digital liderada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Ele coordenou o Exército do Lula, um canal no WhatsApp que reuniu mais de 10 milhões de seguidores. A estratégia ampliou o alcance da campanha nas redes sociais e disputou espaço com a comunicação bolsonarista principalmente no Instagram e no X.

Lula também procurou colocar Flávio Bolsonaro na defensiva e o desafiou a autorizar a abertura de sigilos bancários e telefônicos. O próprio presidente Lula protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no dia 20 de outubro, a autorização para a quebra de sigilo de seus dados, da primeira-dama, Rosângela Janja da Silva, e dos seus cinco filhos, incluindo Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, suspeito de tráfico de influência e envolvimento no escândalo das fraudes do INSS.

A campanha lulista também encontrou uma oportunidade de desgastar a imagem do adversário na discussão sobre o Bolsa Família. A cinco dias do segundo turno, em 19 de outubro, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, defendeu uma regra de transição de dois anos para beneficiários que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio.

A proposta previa a manutenção do benefício durante o período, com possibilidade de retorno ao programa caso a tentativa de inserção no mercado de trabalho não desse certo. Mas a declaração foi utilizada por adversários como sinal de que um eventual governo Flávio poderia restringir o acesso ao programa após dois anos.

O PT explorou a repercussão para associar a candidatura do senador ao risco de perda de proteção social entre famílias de baixa renda. Daniella e Flávio negaram a intenção de cortar o Bolsa Família e afirmaram que a proposta buscava incentivar a autonomia financeira dos beneficiários.

Também foram resgatadas publicações do senador com críticas ao Bolsa Família que haviam sido excluídas do seu perfil no X. Entre as postagens, Flávio chamava o programa social de “bolsa-farelo”.

Além disso, o caso do Banco Master pairou sobre o senador durante a maior parte da campanha. Relatórios da Polícia Federal apontaram reuniões e contatos constantes entre Flávio e Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição. A apuração, sob relatoria do ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal (STF), focou na suspeita de contratação de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para o financiamento do filme "Dark Horse", em homenagem a Jair Bolsonaro.

Antes do caso vir à tona, Flávio Bolsonaro afirmou que não havia tido contato com Vorcaro. A prova de relação entre senador e ex-banqueiro enfraqueceu a integridade do discurso do candidato e colocou sua campanha na defensiva.

Os desgastes de Lula

O caso Master também foi um ponto de desgaste para a candidatura de Lula.  A oposição explorou as relações de aliados do presidente com Vorcaro e suspeitas envolvendo integrantes de seu entorno político. Entre eles estão os ex-ministros Guido Mantega, contratado como consultor pela instituição, e Ricardo Lewandowski, cujo escritório recebeu pagamentos do banco, e o ex-líder do governo no Senado, o parlamentar Jaques Wagner (PT-BA), apontado pela PF como próximo do ex-sócio do Master Augusto Lima.

O próprio Lula afirmou ter conversado com o ex-banqueiro em dezembro de 2024, no Palácio do Planalto, quando o empresário o procurou para reclamar da situação do banco. 

A oposição também levou à campanha as investigações envolvendo Roberta Luchsinger, empresária e lobista investigada ao lado de Lulinha por suspeitas de tráfico de influência em apurações relacionadas a fraudes no INSS. No debate da Band, Flávio questionou Lula sobre a relação entre os dois e acusou o governo de transformar a administração pública em um balcão de negócios.

Com relação ao Master, a estratégia petista foi deslocar o caso para o campo adversário. Lula explorou as mensagens em que o senador negociou recursos para financiar o filme "Dark Horse". Já no caso de Roberta Luchsinger, Lula negou conhecer a empresária e, em entrevistas, chamou-a de “pilantra”. O presidente também chamou a lobista de "Vorcaro feminino".

Na reta final, o governo lançou medidas de impacto direto no bolso do eleitor, criticadas pela oposição como eleitoreiras. Em 17 de setembro, a duas semanas do primeiro turno, Lula reajustou os benefícios do Bolsa Família em 15,04%. O piso foi elevado de R$ 600 para R$ 691. Os valores reajustados passaram a ser pagos a partir de 19 de outubro, já entre o primeiro e o segundo turno. 

O governo justificou a medida como reposição da inflação acumulada desde 2023 e disse que o custo seria absorvido no orçamento do ano, sem créditos extraordinários. Ainda assim, o reajuste gera um custo estimado de R$ 22,7 bilhões ao ano, o que representa uma conta de cerca de R$ 90 bilhões ao longo do próximo mandato.

Pouco depois, Lula assinou uma medida provisória para a proibição das bets no país e a retirada dos sites e aplicativos do ar em 6 de outubro. A iniciativa integra um pacote contra o endividamento das famílias, que inclui um novo programa de renegociação de dívidas e mudanças nas regras de crédito. Flávio classificou a medida como eleitoreira e acusou o governo de "estelionato" a nove dias do primeiro turno.

A campanha de Lula também foi marcada pela tentativa de transformar a agenda social e econômica do terceiro mandato em argumento para a permanência do PT no Planalto. Ao mesmo tempo, o presidente precisou responder a críticas sobre a situação fiscal, o custo de vida e episódios que atingiram o governo ao longo do ano eleitoral. 

Entre os principais trunfos mobilizados pelo petista estiveram a política de valorização do salário mínimo, programas de transferência de renda, medidas voltadas ao consumo e propostas para ampliar direitos trabalhistas. Entre as bandeiras defendidas, estavam a continuidade do aumento real do salário mínimo, além da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e do fim da escala 6x1.

O desafio do quarto mandato
A vitória não encerra os desafios que marcaram a campanha. Lula chega ao quarto mandato diante de um país ainda polarizado e terá pela frente a tarefa de transformar as promessas apresentadas durante a eleição e as pendências do seu terceiro governo em realidade.

Na economia, o governo Lula 4 terá de conciliar a ampliação de políticas sociais e dos investimentos públicos com a necessidade de manter as contas públicas sob controle. A trajetória da dívida bruta, dos juros, da inflação, do emprego e da renda será determinante para a capacidade de Lula sustentar sua agenda econômica.

No Congresso, a relação com deputados e senadores será outro desafio central. O resultado do primeiro turno ampliou a força da direita no Legislativo. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara, e 19 senadores, chegando a uma bancada projetada de 28 integrantes no Senado a partir de 2027.

O presidente terá de construir uma base capaz de aprovar as propostas de seu governo em um Legislativo que, nos últimos anos, ampliou sua influência sobre o Orçamento e consolidou uma atuação mais independente do Planalto.

A agenda defendida pelo petista combina a ampliação de políticas sociais com novas bandeiras, como educação em tempo integral, redução da jornada de trabalho, acolhimento da população idosa e desenvolvimento tecnológico. Na economia, a defesa da soberania nacional e da exploração de minerais estratégicos deverá continuar ocupando espaço central.

A última dança

Lula iniciou sua última campanha presidencial, em agosto, no berço da sua trajetória política. A candidatura foi oficializada na convenção nacional do PT, em São Paulo, e o primeiro ato ocorreu no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, palco das greves do ABC Paulista que projetaram o então líder sindical nacionalmente.

O presidente chegou à disputa tentando transformar um legado construído ao longo de três mandatos em uma promessa para o futuro. A campanha reconhecia que programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e a política de valorização do salário mínimo já haviam sido incorporados por parte do eleitorado como políticas permanentes do Estado brasileiro.

Entre as bandeiras apresentadas durante a campanha, estiveram a ampliação da educação em tempo integral e a redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6x1. Na economia, Lula também incorporou ao discurso eleitoral a defesa da soberania nacional e do desenvolvimento tecnológico. O programa de governo apresentado pelo PT colocou a soberania entre seus eixos e mencionou temas como minerais estratégicos, desenvolvimento industrial, regulação das redes e redução da jornada de trabalho.

A pauta ganhou força ao longo da campanha em meio ao conflito comercial com os Estados Unidos e à pressão do governo Donald Trump sobre o Brasil. Em pronunciamento no último 7 de Setembro, Lula associou soberania à capacidade de o país controlar suas riquezas naturais e citou reservas de terras raras, petróleo e água como ativos estratégicos para o desenvolvimento brasileiro.

Na reta final da campanha, o presidente também levou essa agenda para o seu discurso internacional na Assembleia Geral da ONU, em setembro. Ele voltou a defender a soberania brasileira, o desenvolvimento tecnológico, o fim da escala 6x1, a regulação da inteligência artificial e uma maior autonomia do país diante de interesses estrangeiros

Lula tentou se eleger pela primeira vez em 1982, quando concorreu ao cargo de governador do estado de São Paulo pelo PT, ficando em quarto lugar. Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte por São Paulo, sendo o parlamentar mais votado do país naquela eleição.

O petista tentou ser presidente pela primeira vez em 1989, quando foi derrotado por Fernando Collor. Voltou a disputar o Planalto em 1994 e 1998, até vencer em 2002, derrotando José Serra (PSDB). Foi reeleito em 2006 e deixou o governo em 2010 com índices elevados de aprovação, elegendo Dilma Rousseff (PT) como sua sucessora.

Depois de deixar a Presidência, Lula enfrentou o período mais turbulento de sua carreira política. Foi alvo da Lava Jato, condenado e preso em 2018. Permaneceu 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba e perdeu os direitos políticos naquele período.

Em 2021, as condenações foram anuladas pelo STF, permitindo sua volta à disputa eleitoral. No ano seguinte, Lula derrotou Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de pouco mais de 2.139.645 votos válidos, na eleição presidencial mais apertada da redemocratização. Agora Lula foi reeleito para seu último mandato.


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