A rotina de profissionais que atendem emergências fora do ambiente hospitalar ganhou destaque com a série “Emergência 53”, exibida pelo Globoplay. A produção acompanha uma equipe de atendimento móvel de urgência e coloca em evidência uma realidade na qual imprevisibilidade, pressão e decisões rápidas fazem parte do dia a dia.
Para a médica Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, que atuou como médica intervencionista no SAMU do Rio Grande do Sul entre 2015 e 2018, a imprevisibilidade é justamente uma das características mais marcantes desse trabalho. Muitas vezes, as equipes recebem apenas informações iniciais sobre a ocorrência e precisam estar preparadas para encontrar um cenário muito diferente ao chegar ao local.
Acidentes de trânsito, paradas cardiorrespiratórias, traumas graves, crises clínicas, episódios de violência e ocorrências com múltiplas vítimas estão entre as situações que exigem preparo e rapidez. “Diferentemente do ambiente hospitalar, no atendimento pré-hospitalar não temos toda a estrutura de um pronto-socorro à disposição. É preciso avaliar o paciente, identificar o que representa risco imediato de morte, estabilizá-lo com os recursos disponíveis e definir rapidamente para onde ele deve ser encaminhado. Em algumas situações, poucos minutos — ou mesmo segundos — podem modificar completamente o desfecho”, explica.
Outro desafio é tomar decisões importantes com informações incompletas e em ambientes que não foram preparados para assistência médica. Uma residência, uma rodovia ou mesmo a rua pode se transformar no local de atendimento, enquanto os profissionais também precisam lidar com familiares, testemunhas, trânsito e eventuais riscos da própria ocorrência.
Nessas situações, estabelecer prioridades é fundamental. “Em um paciente gravemente ferido, nem sempre a conduta mais importante naquele momento é chegar a um diagnóstico definitivo, mas reconhecer rapidamente aquilo que pode matá-lo primeiro, intervir no que for possível e garantir que ele chegue ao serviço adequado em condições de receber o tratamento definitivo. No atendimento pré-hospitalar, saber o que precisa ser feito é tão importante quanto saber o que não pode esperar”, ressalta a médica.
O treinamento, os protocolos e a integração da equipe também ajudam os profissionais a lidar com a pressão emocional. Segundo Daitx, médico, enfermagem, condutor e regulação precisam atuar de maneira coordenada. Mesmo assim, determinadas ocorrências permanecem na memória. “A técnica permite agir durante a emergência, mas isso não significa que o profissional deixe de ser afetado por aquilo que viu”, afirma.
Atendimento que marcou a carreira
Entre as ocorrências que Caroline acompanhou durante sua atuação no SAMU, uma colisão entre um carro e uma motocicleta, em Osório (RS), tornou-se uma das experiências mais marcantes de sua carreira.
Ao chegar no local, a equipe encontrou uma mulher caída, com uma grave lesão no pescoço, importante perda de sangue e nível de consciência rebaixado. O quadro indicava risco iminente de morte. “Naquele momento, não havia espaço para hesitação. Realizamos a intubação ainda na cena e permanecemos cerca de 40 minutos prestando atendimento e buscando estabilizá-la antes do transporte”, recorda.
A paciente foi encaminhada inicialmente ao Hospital São Vicente de Paulo, onde foi realizado o controle definitivo da hemorragia provocada pela lesão dos vasos sanguíneos do pescoço. Depois, a própria equipe do SAMU fez a transferência para o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre. Ela permaneceu nove dias na UTI e recebeu alta a tempo de passar o Natal com a família.
Meses depois, a história ganhou um desfecho inesperado. A paciente retornou ao SAMU acompanhada da mãe para agradecer à equipe responsável pelo resgate. “Para nós, normalmente a história termina quando entregamos o paciente ao hospital. Muitas vezes não sabemos o que aconteceu depois. Naquele dia, eu pude olhar para uma mulher que havia chegado até nós entre a vida e a morte e vê-la novamente de pé, ao lado da família”, relata.
Para a médica, o caso resume a importância do atendimento pré-hospitalar. “Existem alguns minutos em que decisões técnicas tomadas na rua podem determinar se aquela pessoa terá ou não a oportunidade de chegar viva ao tratamento definitivo. É uma responsabilidade enorme, mas também um privilégio perceber que aqueles minutos de trabalho podem representar anos de vida para alguém.”
Fonte: Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.
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