As fortes chuvas que voltaram a atingir o Rio Grande do Sul nos últimos dias deixaram municípios em alerta para alagamentos e inundações, especialmente nas regiões do Vale do Taquari, Vale do Rio Pardo, Região Central, Fronteira Oeste, Noroeste, Serra e áreas próximas ao Guaíba. À medida que a água baixa em diversas localidades, inicia-se uma etapa tão importante quanto o resgate das famílias atingidas: a recuperação dos imóveis e a prevenção de doenças.
Mais do que remover a lama, a recuperação dos imóveis exige a eliminação dos riscos deixados pela enchente. A água pode transportar esgoto, resíduos químicos, metais pesados, lixo e diversos micro-organismos capazes de provocar infecções, tornando indispensáveis tanto a higienização criteriosa dos ambientes quanto a atualização da vacinação.
Para o Dr. Fábio Argenta, diretor médico da Saúde Livre Vacinas, rede especialista em imunização, conferir a caderneta de vacinação deve fazer parte das primeiras medidas após uma enchente. “É uma atitude simples, mas que pode evitar complicações e reduzir o risco de doenças, protegendo não apenas quem teve contato direto com a água e a lama contaminadas, mas também familiares e pessoas que convivem em abrigos ou áreas próximas”, orienta.
Entre os imunizantes que merecem atenção estão a dTpa, indicada principalmente para pessoas que tiveram contato com água ou lama contaminadas, especialmente em casos de ferimentos; a vacina contra hepatite A, importante devido ao risco de exposição à água e alimentos contaminados por esgoto; e a vacina contra a influenza, que ajuda a prevenir infecções respiratórias, mais frequentes em abrigos e locais com grande circulação de pessoas após desastres naturais.
Além da vacinação, a limpeza correta dos ambientes é outra medida indispensável para reduzir os riscos à saúde após uma enchente. Segundo Adriana Saeka, especialista em limpeza da Ecoville, maior rede especializada em produtos de limpeza do Brasil, em Canoas (RS), o primeiro passo é garantir a segurança antes de iniciar qualquer procedimento. “É fundamental desligar a energia elétrica, utilizar botas impermeáveis, luvas de borracha e, sempre que possível, máscara, além de descartar alimentos, medicamentos e objetos que tiveram contato com a água contaminada”, orienta.
A especialista explica que a recuperação dos ambientes deve seguir três etapas: limpeza, higienização e desinfecção. Primeiro, é preciso remover toda a lama e os resíduos sólidos com pás, rodos, escovas e panos descartáveis. Depois, lavar pisos, paredes, móveis e superfícies com água limpa e detergente, desengordurante ou limpador multiuso. “Essa etapa remove a sujeira visível e prepara as superfícies para a desinfecção, que só é eficaz quando a lama já foi eliminada”, explica.
Na sequência, deve-se higienizar os ambientes com limpadores de ação bactericida ou produtos específicos para superfícies. Por fim, a desinfecção deve ser feita com desinfetantes de uso geral, multiuso com oxigênio ativo ou água sanitária, sempre seguindo a diluição e o tempo de ação indicados pelo fabricante. “Essa etapa elimina vírus, bactérias e fungos que podem permanecer nas superfícies mesmo após a lavagem”, afirma.
Outro ponto de atenção são colchões, tapetes, estofados e outros materiais porosos, que absorvem facilmente a água contaminada. “Quando não for possível realizar uma higienização profunda, o mais seguro é descartar esses itens para evitar a proliferação de fungos, bactérias e mofo”, orienta Adriana.
Cozinhas, banheiros, clínicas, consultórios, hospitais e estabelecimentos comerciais exigem atenção redobrada. “Nesses locais, é importante reforçar a desinfecção de superfícies de maior contato, como bancadas, maçanetas, torneiras e pisos”, recomenda.
Adriana também faz um alerta sobre um erro frequente na limpeza pós-enchente: misturar produtos químicos. “Nunca combine água sanitária com desinfetantes, amônia, álcool ou outros produtos. Algumas misturas podem liberar gases tóxicos e causar intoxicações graves. O correto é utilizar cada produto separadamente e conforme as orientações do fabricante.”
Para finalizar, a especialista recomenda manter portas e janelas abertas para acelerar a secagem dos ambientes e reduzir a umidade, dificultando a formação de mofo. “Depois de uma enchente, a limpeza deixa de ser apenas uma questão de aparência. Ela é uma medida de saúde pública. Seguir todas as etapas corretamente reduz significativamente o risco de doenças e permite que famílias e empresas retomem suas atividades com segurança”, conclui Adriana.
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