Este artigo integra uma série de publicações realizadas neste respeitável Jornal Ponto Inicial, com foco na Imigração Italiana no Brasil.
O diálogo com mulheres descendentes de imigrantes italianos durante a pesquisa e o estudo da história e do percurso dessas famílias em Bento Gonçalves, no estado do Rio Grande do Sul, serviu como fonte de inspiração para a publicação deste artigo: “Mulheres Italianas: A Reconstrução De Um Sonho”.
Este artigo teve como referência o livro Bordando Sonhos. Os escritores Neusa Maria Roveda Stimamiglio e Fernando Roveda, Caxias do Sul- RS: Lorigraf, 2010, abordam a relevância das bordadeiras na rotina das famílias de descendência italiana no nordeste do Rio Grande do Sul, especialmente na cidade de Antônio Prado.
Segundo os autores, o objetivo do estudo sobre o tema Bordando Sonhos foi “valorizar o dia a dia de mulheres que permaneciam anônimas, frequentemente invisíveis e indizíveis, além de trazer à luz a história dessas vidas.” (Stimamiglio, 2010, p. 26)
As artes artesanais, como tricô, crochê e, principalmente, bordado, foram introduzidas pelas mulheres italianas e se tornaram parte dos costumes e tradições, além de simbolizarem a identidade feminina em períodos de adversidade.
Essa tradição continua presente atualmente, tanto em sua realização quanto, muitas vezes, preservada em caixinhas de recordações como um símbolo da resistência e bravura das mulheres que enfrentaram adversidades em períodos difíceis e reescreveram suas próprias histórias e a de suas famílias.
O bordado e outras atividades manuais, como tricô e crochê, além do corte e costura, foram passados de uma geração para a outra.
As avós, mães de mulheres italianas entrevistadas exerciam essas atividades com amor e maestria, tanto para o enxoval de suas filhas quanto para o sustento familiar.
Em entrevistas, a maioria das mulheres compartilhou as alternativas que encontraram para sustentar suas famílias, além do trabalho agrícola que realizavam com seus maridos para o próprio sustento e comercialização dos produtos.
Nos domingos e em dias chuvosos, mãe e filhas se reuniam em sua casa para fazer bordados e ensinar as filhas a manusear a agulha e as linhas nos desenhos mais suaves que retratavam seu cotidiano.
O que mais se destacou foram os panos de parede bordados, normalmente pendurados atrás do fogão a lenha. Esses panos de parede ilustravam o dia a dia das famílias italianas, seus ensinamentos e devoção a Deus e a Nossa Senhora, manifestando sua fé.
No livro "Bordando Sonhos", de Stimamiglio, 2010, p.46, Teresinha Lucia Carvalho descreve a criação de um pano de parede que ilustra sua mãe ensinando e irmãs aprendendo a bordar em volta de um fogão a lenha nas tardes chuvosas: “Todas sentadas. A mãe ensinando uma por uma. Eu lembro a gente sentada quando chovia, lembro de nós sentadas, e a mãe ficava brava porque nós errávamos e ela ficava uma por uma para ensinar. Ela tinha que fazer a comida, dar atenção para nós. Eu sempre lembro desta cena. Eu me orgulho muito de saber fazer muita coisa. Eu adoro bordar.”

Ano de 2010. Bordadeira Teresinha Lucia Carvalho. Pano de Parede. Fonte: Neusa R. Stimamiglio e Fernando Roveda., 2010, p.46
É a arte refletindo a vida e a vida refletindo a arte de forma tão única que encanta a vida, levando essas mulheres italianas a se tornarem reconstrutoras de seus próprios sonhos. De uma existência árdua para uma vida de contemplação, onde o real se converte em divino e a vida continua em sua esmerada beleza.
Ivone Maria Rasera Souto: "Sempre tive apreço pela arte de bordar"
"Comecei a bordar na Escola Normal Nossa Senhora Medianeira, em Bento Gonçalves - RS, onde estudei desde 1952. Adquiri muitos conhecimentos e possuía uma Enciclopédia Mãos de Ouro.
Sempre tive apreço pela arte de bordar. E por iniciativa própria procurei aprender para o consumo da minha família.
Na escola, aprendi o básico: ponto atrás e ponto cruz. Estava incluído no currículo da escola primária. As irmãs ensinavam uma variedade de coisas: folclore, gaita, culinária, bordado...
A Enciclopédia Mãos de Ouro me ensinou muitos aspectos. Ponto cheio, pintura de agulha, rococó e outros tipos de bordado. O que eu mais gostava de usar para bordar o enxoval da filha. era a pintura de agulha, porque ficava mais delicado.
Porém, fiz um pouco de tudo. Aulas de tricô, crochê, tapeçaria, pintura em pano de prato, vidro, potes de argila e pintura a óleo em quadros. Também fiz um curso de Patchwork.
Sempre tive desejo de aprender e fazer. Também fiz curso de corte e costura. Cheguei a fazer camisas para o meu marido.
Ivone declara: "Nem consigo acreditar que realizei tantas coisas." A docente da disciplina de Pintura em Tela desejava que eu comercializasse uma obra, porém recusei.
Aos 80 anos, continuo fazendo tricô. Atividades como pintura e tricô contribuem para superar as dificuldades diárias. Incentivam a manter a esperança em dias melhores.” Adiciona informações à entrevista.

Ivani Lurdes Masera Maseto: Aprendeu a bordar, costurar e fazer crochê para criar seu próprio enxoval.
Com suas irmãs Maria e Irani, aprendeu a fazer crochê e bordado. A costurar com sua mãe, Lúcia Gallon Masera. A jovem já possuía habilidades de bordado e costura para confeccionar peças para a família, especialmente para a preparação do enxoval. Na juventude, ela já bordava e costurava.
Não havia aulas de bordado na instituição de ensino em que você estudou. As famílias tinham como objetivo ensinar suas filhas a arte do artesanato e da costura para uso próprio e dos enxovais, conforme já mencionado.
O tecido utilizado era branco, conhecido como “bonbazina”. Costuravam o tecido e preparavam a barra para o bordado. O tecido era comprado em rolo pela mãe. Além disso, faziam crochê nas toalhinhas brancas feitas de saco de açúcar.
Ivani confeccionou um tapete cor branca, e o utilizou o modelo em uma revista que comprou para isso. O tapete ela enfeitou o seu quarto de casal, mas agora guarda ele, como uma relíquia.

Ano de 1980.Tapete para o quarto confeccionado por Ivani Masera Maseto.
As mulheres da família sempre realizavam as tarefas domésticas, como cozinhar, lavar e limpar, além de ajudarem no trabalho rural. A mãe acordava, tomava o café e se preparava para levar comida para os homens que trabalhavam na lavoura. Não havia divisão de trabalho; estávamos sempre juntos em tudo.
Ivani afirmou que, nos dias de chuva e aos domingos, mãe e suas filhas se reuniam em casa para bordar e costurar. Sempre apreciaram o trabalho manual, pois é benéfico e ajuda a aliviar a fadiga do dia a dia. Não vendiam os produtos fabricados.
Angelina (Prezzi) Masera: "Quando me casei, já tinha pleno domínio da profissão de costureira"
Angelina (Prezzi) Masera, menciona que, quando solteira, fez o curso de corte e costura São Francisco. O curso foi realizado no município de Rolante, e a equipe responsável pela instrução era da cidade de Taquara - RS. A formatura aconteceu no dia 8 de janeiro de 1960, e a professora foi Oreli Fleck.
Angelina fez o curso de Corte e Costura tanto para uso pessoal e familiar quanto para produzir e comercializar. Quando se casou, já possuía pleno domínio do ofício. Durante muitos anos, trabalhou como costureira para as famílias na localidade de Chuvisqueiro, Riozinho -RS. Fabricava vestidos para festas, comemorações, batizados e Primeira Comunhão das crianças.
Ela recorda com afeto os vestidos da Primeira Comunhão que confeccionou para as filhas de Dorzolina (Pandolfo) Masera, Claudete e Eliane Masera, entre outras crianças.
Em 1969, mudou-se para Gravataí com a família e começou sua trajetória no comércio, mas nunca deixou de fazer seus próprios vestidos e ternos para que o marido usasse nas ocasiões especiais. Em 2014, ela recebeu o título de Rainha, enquanto seu marido, Leonir Masera, foi declarado Rei da Associação dos Aposentados de Gravataí – RS, entre outras coroações.

Com data de 8 de janeiro de 1960. Certificado do curso de corte e costura São Francisco. Acervo da família de Angelina (Prezzi) Masera

1960. Formandos do Curso de Corte e Costura, São Francisco. Acervo de Angelina Masera

8 de janeiro de 1960. Angelina (Prezzi) Masera e seu pai, Adolfo Prezzi. Cerimônia de Formatura Do Curso De Corte e Costura em Rolante. Acervo da família de Angelina Masera.
Isabel C Masera Mazaroba: Confeccionou a colcha de crochê para o enxoval de seu matrimonio
Isabel C Masera Mezaroba. "O Tricô aprendi em um curso no sindicato de Bento Gonçalves, no estado do Rio Grande do Sul. Otilia Gabardo foi a professora, enquanto o crochê foi aprendido de forma autodidata".
Ela destacou a importância de ter prazer em trabalhos manuais. Afirma ainda que aprendeu a trabalhar e, eventualmente, começou a confeccionar para consumo próprio e de sua família.
Enfatizou a importância de encontrar prazer em trabalhos manuais, pois isso ajuda a aliviar as preocupações do dia a dia e a rotina nos parreirais de uva.
Naquela época, era uma moda e uma atividade para as moças. As toalhas eram confeccionadas em tecido de algodão, o que lhes conferia uma aparência muito elegante. Hoje em dia, a filha gosta de pintar em tecido.

Ano de 1990. Colcha de crochê feita por Isabel C. Masera Mezaroba, para o enxoval do seu matrimônio.
Bordar é contar uma história e marcar um tempo de experiências com carinho e resiliência. Ou um tempo de conquista e vitória, marca um território, marca no tecido a identidade do povo, ou bordar são marcas de saudade, ou são homenagens ao legado e tradição das mulheres italianas que reconstruíram sua cultura e seu sonhos.
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