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Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho

Este artigo integra uma série de publicações realizadas neste respeitável Jornal Ponto Inicial, com foco na Imigração Italiana no Brasil.

Laudir Dutra - Redação Publicado em 27 de maio de 2026 às 21:55
Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho
Fonte: Elisete Luiza Masera. Filósofa e Publicitária - Email para contato: elimasera@yahoo.com.br-Telefone: 51 8325 5359 Foto: Divulgação
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Este artigo integra uma série de publicações realizadas neste respeitável Jornal Ponto Inicial, com foco na Imigração Italiana no Brasil.
O diálogo com mulheres descendentes de imigrantes italianos durante a pesquisa e o estudo da história e do percurso dessas famílias em Bento Gonçalves, no estado do Rio Grande do Sul, serviu como fonte de inspiração para a publicação deste artigo: “Mulheres Italianas: A Reconstrução De Um Sonho”.
Este artigo teve como referência o livro Bordando Sonhos. Os escritores Neusa Maria Roveda Stimamiglio e Fernando Roveda, Caxias do Sul- RS: Lorigraf, 2010, abordam a relevância das bordadeiras na rotina das famílias de descendência italiana no nordeste do Rio Grande do Sul, especialmente na cidade de Antônio Prado.
Segundo os autores, o objetivo do estudo sobre o tema Bordando Sonhos foi “valorizar o dia a dia de mulheres que permaneciam anônimas, frequentemente invisíveis e indizíveis, além de trazer à luz a história dessas vidas.” (Stimamiglio, 2010, p. 26)
As artes artesanais, como tricô, crochê e, principalmente, bordado, foram introduzidas pelas mulheres italianas e se tornaram parte dos costumes e tradições, além de simbolizarem a identidade feminina em períodos de adversidade.
 Essa tradição continua presente atualmente, tanto em sua realização quanto, muitas vezes, preservada em caixinhas de recordações como um símbolo da resistência e bravura das mulheres que enfrentaram adversidades em períodos difíceis e reescreveram suas próprias histórias e a de suas famílias.
O bordado e outras atividades manuais, como tricô e crochê, além do corte e costura, foram passados de uma geração para a outra.
 As avós, mães de mulheres italianas entrevistadas exerciam essas atividades com amor e maestria, tanto para o enxoval de suas filhas quanto para o sustento familiar.
Em entrevistas, a maioria das mulheres compartilhou as alternativas que encontraram para sustentar suas famílias, além do trabalho agrícola que realizavam com seus maridos para o próprio sustento e comercialização dos produtos.
Nos domingos e em dias chuvosos, mãe e filhas se reuniam em sua casa para fazer bordados e ensinar as filhas a manusear a agulha e as linhas nos desenhos mais suaves que retratavam seu cotidiano.
O que mais se destacou foram os panos de parede bordados, normalmente pendurados atrás do fogão a lenha. Esses panos de parede ilustravam o dia a dia das famílias italianas, seus ensinamentos e devoção a Deus e a Nossa Senhora, manifestando sua fé. 
No livro "Bordando Sonhos", de Stimamiglio, 2010, p.46, Teresinha Lucia Carvalho descreve a criação de um pano de parede que ilustra sua mãe ensinando e irmãs aprendendo a bordar em volta de um fogão a lenha nas tardes chuvosas: “Todas sentadas. A mãe ensinando uma por uma. Eu lembro a gente sentada quando chovia, lembro de nós sentadas, e a mãe ficava brava porque nós errávamos e ela ficava uma por uma para ensinar. Ela tinha que fazer a comida, dar atenção para nós. Eu sempre lembro desta cena. Eu me orgulho muito de saber fazer muita coisa. Eu adoro bordar.” 
Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho

Ano de 2010. Bordadeira Teresinha Lucia Carvalho. Pano de Parede. Fonte: Neusa R. Stimamiglio e Fernando Roveda., 2010, p.46

É a arte refletindo a vida e a vida refletindo a arte de forma tão única que encanta a vida, levando essas mulheres italianas a se tornarem reconstrutoras de seus próprios sonhos. De uma existência árdua para uma vida de contemplação, onde o real se converte em divino e a vida continua em sua esmerada beleza.

Ivone Maria Rasera Souto: "Sempre tive apreço pela arte de bordar"

"Comecei a bordar na Escola Normal Nossa Senhora Medianeira, em Bento Gonçalves - RS, onde estudei desde 1952. Adquiri muitos conhecimentos e possuía uma Enciclopédia Mãos de Ouro.
Sempre tive apreço pela arte de bordar. E por iniciativa própria procurei aprender para o consumo da minha família.
Na escola, aprendi o básico: ponto atrás e ponto cruz.  Estava incluído no currículo da escola primária.  As irmãs ensinavam uma variedade de coisas: folclore, gaita, culinária, bordado...
A Enciclopédia Mãos de Ouro me ensinou muitos aspectos. Ponto cheio, pintura de agulha, rococó e outros tipos de bordado. O que eu mais gostava de usar para bordar o enxoval da filha.  era a pintura de agulha, porque ficava mais delicado.
Porém, fiz um pouco de tudo.  Aulas de tricô, crochê, tapeçaria, pintura em pano de prato, vidro, potes de argila e pintura a óleo em quadros. Também fiz um curso de Patchwork.
Sempre tive desejo de aprender e fazer. Também fiz curso de corte e costura.  Cheguei a fazer camisas para o meu marido.
Ivone declara: "Nem consigo acreditar que realizei tantas coisas." A docente da disciplina de Pintura em Tela desejava que eu comercializasse uma obra, porém recusei. 
Aos 80 anos, continuo fazendo tricô. Atividades como pintura e tricô contribuem para superar as dificuldades diárias. Incentivam a manter a esperança em dias melhores.” Adiciona informações à entrevista.
Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho
Ivani Lurdes Masera Maseto: Aprendeu a bordar, costurar e fazer crochê para criar seu próprio enxoval.

Com suas irmãs Maria e Irani, aprendeu a fazer crochê e bordado. A costurar com sua mãe, Lúcia Gallon Masera. A jovem já possuía habilidades de bordado e costura para confeccionar peças para a família, especialmente para a preparação do enxoval. Na juventude, ela já bordava e costurava.
Não havia aulas de bordado na instituição de ensino em que você estudou. As famílias tinham como objetivo ensinar suas filhas a arte do artesanato e da costura para uso próprio e dos enxovais, conforme já mencionado.
O tecido utilizado era branco, conhecido como “bonbazina”. Costuravam o tecido e preparavam a barra para o bordado. O tecido era comprado em rolo pela mãe. Além disso, faziam crochê nas toalhinhas brancas feitas de saco de açúcar.
Ivani confeccionou um tapete cor branca, e o utilizou o modelo em uma revista que comprou para isso. O tapete ela enfeitou o seu quarto de casal, mas agora guarda ele, como uma relíquia.

Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho
Ano de 1980.Tapete para o quarto confeccionado por Ivani Masera Maseto.

As mulheres da família sempre realizavam as tarefas domésticas, como cozinhar, lavar e limpar, além de ajudarem no trabalho rural. A mãe acordava, tomava o café e se preparava para levar comida para os homens que trabalhavam na lavoura. Não havia divisão de trabalho; estávamos sempre juntos em tudo.
Ivani afirmou que, nos dias de chuva e aos domingos, mãe e suas filhas se reuniam em casa para bordar e costurar. Sempre apreciaram o trabalho manual, pois é benéfico e ajuda a aliviar a fadiga do dia a dia. Não vendiam os produtos fabricados.

Angelina (Prezzi) Masera: "Quando me casei, já tinha pleno domínio da profissão de costureira"
Angelina (Prezzi) Masera, menciona que, quando solteira, fez o curso de corte e costura São Francisco. O curso foi realizado no município de Rolante, e a equipe responsável pela instrução era da cidade de Taquara - RS.  A formatura aconteceu no dia 8 de janeiro de 1960, e a professora foi Oreli Fleck.

Angelina fez o curso de Corte e Costura tanto para uso pessoal e familiar quanto para produzir e comercializar. Quando se casou, já possuía pleno domínio do ofício. Durante muitos anos, trabalhou como costureira para as famílias na localidade de Chuvisqueiro, Riozinho -RS. Fabricava vestidos para festas, comemorações, batizados e Primeira Comunhão das crianças. 
Ela recorda com afeto os vestidos da Primeira Comunhão que confeccionou para as filhas de Dorzolina (Pandolfo) Masera, Claudete e Eliane Masera, entre outras crianças.
Em 1969, mudou-se para Gravataí com a família e começou sua trajetória no comércio, mas nunca deixou de fazer seus próprios vestidos e ternos para que o marido usasse nas ocasiões especiais. Em 2014, ela recebeu o título de Rainha, enquanto seu marido, Leonir Masera, foi declarado Rei da Associação dos Aposentados de Gravataí – RS, entre outras coroações.
Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho
Com data de 8 de janeiro de 1960. Certificado do curso de corte e costura São Francisco. Acervo da família de Angelina (Prezzi) Masera

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1960. Formandos do Curso de Corte e Costura, São Francisco. Acervo de Angelina Masera

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8 de janeiro de 1960. Angelina (Prezzi) Masera e seu pai, Adolfo Prezzi. Cerimônia de Formatura Do Curso De Corte e Costura em Rolante. Acervo da família de Angelina Masera.

Isabel C Masera Mazaroba: Confeccionou a colcha de crochê para o enxoval de seu matrimonio
Isabel C Masera Mezaroba. "O Tricô aprendi em um curso no sindicato de Bento Gonçalves, no estado do Rio Grande do Sul. Otilia Gabardo foi a professora, enquanto o crochê foi aprendido de forma autodidata".
Ela destacou a importância de ter prazer em trabalhos manuais. Afirma ainda que aprendeu a trabalhar e, eventualmente, começou a confeccionar para consumo próprio e de sua família.
Enfatizou a importância de encontrar prazer em trabalhos manuais, pois isso ajuda a aliviar as preocupações do dia a dia e a rotina nos parreirais de uva.
Naquela época, era uma moda e uma atividade para as moças. As toalhas eram confeccionadas em tecido de algodão, o que lhes conferia uma aparência muito elegante.  Hoje em dia, a filha gosta de pintar em tecido.
Mulheres Italianas | A Reconstrução De Um Sonho
Ano de 1990. Colcha de crochê feita por Isabel C. Masera Mezaroba, para o enxoval do seu matrimônio.
Bordar é contar uma história e marcar um tempo de experiências com carinho e resiliência. Ou um tempo de conquista e vitória, marca um território, marca no tecido a identidade do povo, ou bordar são marcas de saudade, ou são homenagens ao legado e tradição das mulheres italianas que reconstruíram sua cultura e seu sonhos.

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