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Não é sobre tela: é sobre infância, poder e responsabilidade

Por Vitor Batista Mêreggalli - Psicanalista da Célese

Laudir Dutra - Redação Publicado em 20 de março de 2026 às 14:06
Não é sobre tela: é sobre infância, poder e responsabilidade
Fonte: Vitor Ló - Lato Sensu Foto: Divulgação
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Não foi a tecnologia que “saiu do controle” por acidente. Ela foi desenhada para ser viciante. As redes sociais que moldam o comportamento de milhões de adolescentes foram construídas para capturar atenção, prolongar permanência e transformar vulnerabilidade em engajamento.

Nesse cenário, o Brasil começa a reagir. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) entra em vigor em 17 de março, trazendo medidas de proteção no ambiente digital e regras para prevenir violências, abusos e exposição indevida na internet. A legislação surge em um momento de crescente preocupação com o impacto das telas no desenvolvimento infantil e com a ausência, por muito tempo, de limites claros para plataformas digitais.

A medida atinge plataformas como TikTok, Instagram, Facebook, Snapchat, X, YouTube, Reddit, Twitch, Threads e Kick — e não nasce de moralismo. Nasce de evidências. Um estudo encomendado pelo governo australiano em 2025 mostrou que 96% das crianças de 10 a 15 anos já usavam redes sociais; sete em cada dez haviam sido expostas a conteúdos sensíveis, violentos ou misóginos. É uma falha sistêmica.

Essa discussão também é sobre saúde mental. A adolescência é uma fase de identidade em construção, marcada por comparação, busca de pertencimento e fragilidade emocional. Quando esse processo passa a ocorrer sob a lógica de curtidas, algoritmos e validação instantânea, os efeitos podem ser profundos: ansiedade, distorção de autoimagem, compulsão, insônia e sofrimento psíquico.

Não se trata de demonizar a internet, mas de reconhecer que o modelo de negócio das plataformas frequentemente colide com o desenvolvimento saudável de quem ainda está crescendo.

No fundo, a pergunta é simples e profundamente política: quem vai influenciar a formação emocional da próxima geração — famílias, escolas e instituições democráticas ou sistemas automatizados que lucram com a atenção infantil? O debate sobre telas não é apenas tecnológico. É um debate sobre responsabilidade, desenvolvimento humano e o papel do Estado em proteger a infância.

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