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Contabilidade é campo de estudos com foco no patrimônio

* Por Salézio Dagostim

Laudir Dutra - Redação Publicado em 04 de maro de 2026 às 15:16
Fonte: Por Salézio Dagostim Foto: Divulgação
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Por Salézio Dagostim*

Quando algo acontece conosco, e não gostamos do ocorrido, contestar apenas sobre fato nem sempre é a melhor alternativa. Precisamos refletir sobre este acontecimento para que ele não torne a ocorrer.

Estamos nos referindo à manifestação recente do Ministro da Fazenda, Senhor Fernando Haddad, nas redes sociais, de que “você entra numa empresa hoje brasileira, tem mais contador que engenheiro, essa é a realidade do Brasil. O melhor está por vir, a partir do dia 1º de janeiro de 2027 entra em vigor a maior reforma tributária já feita, será um IVA 100% digital e você terá uma desoneração de encargos e serviços contábeis para fazer a contabilidade da sua empresa como se nunca viu no Brasil”.

As entidades da classe contábil (sindicatos e conselhos) publicaram diversos protestos nas redes sociais em função da declaração  ”você entra numa empresa hoje brasileira, tem mais contador que engenheiro”.

Ao afirmar isso, o Senhor Ministro da Fazenda prova uma certa falta de preparo, não por ofender a profissão contábil em si, mas por perder de vista que, em uma empresa, cada profissão desenvolve uma atividade específica, e, dependendo do local em que atua o profissional, haverá mais profissionais de uma área que de outra. Se afirmarmos, por exemplo, que há, em uma empresa de engenharia, mais engenheiros do que contadores, esta é uma afirmativa verdadeira. Assim como é verdadeiro dizer que em um escritório de contabilidade há mais contadores do que engenheiros. Portanto, o que foi dito não é, de forma alguma, motivo para ofensa.

No nosso entender, o Ministro da Fazenda não teve a intenção de desvalorizar os serviços dos contadores, tampouco de ofendê-los. O que deveria preocupar as entidades contábeis não é a afirmativa de que as “empresas brasileiras tem mais contadores do que engenheiros”, mas a de que “será um IVA 100% digital e você terá uma desoneração de encargos e serviços contábeis para fazer a CONTABILIDADE da sua empresa como nunca viu no Brasil”. Esta colocação é que precisa ser revista, pois o Senhor Ministro usa o termo “contabilidade” para se referir aos serviços de registros fiscais, enquanto que o correto seria dizer que se “terá uma desoneração de encargos e serviços contábeis para fazer os registros fiscais” (e, não, “para fazer a contabilidade”).

O uso indevido do termo “contabilidade” para identificar o setor de registros fiscais que integra o patrimônio dos agentes econômicos e sociais não é culpa do Ministro, mas de quem deveria proteger e fiscalizar a profissão e não o faz, do Conselho Federal de Contabilidade. Estamos acostumados a escutar pessoas utilizando o termo “contabilidade” como se fosse uma técnica de fazer registros. Contabilidade, por fim, passou a identificar qualquer coisa, menos o campo de estudo do contador. Chega-se até mesmo a “contabilizar” mortes, acidentes, volume de chuvas, prejuízos etc. Então, de quem é culpa pelo uso inadequado do termo “contabilidade”? Façamos a devida reflexão...

O Conselho Federal de Contabilidade não deveria se sentir ofendido quando o Ministro da Fazenda afirma que nas empresas há mais “contadores que engenheiros”, mas deveria se preocupar sempre que alguém divulga, nos meios de comunicação, que o escritório faz contabilidade online. Isso, vindo de um profissional contábil e aceito pelos pares e pelo órgão que fiscaliza a profissão, é que deveria ser motivo de preocupação. Usar o termo “contabilidade” como se ela fosse uma técnica de fazer registros fiscais, de forma online, é inadmissível.

Há aqui uma verdadeira inversão de valores. O Conselho Federal de Contabilidade, enquanto órgão público federal, deveria dar mais atenção para a área contábil. Deveria fiscalizar o uso inadequado do termo “contabilidade”, além de  orientar a sociedade, através de uma campanha publicitária, sobre o seu conceito e uso corretos. Contabilidade é o campo de estudo do contador, com foco no patrimônio monetário das pessoas físicas e jurídicas. 

SALÉZIO DAGOSTIM é contador, pesquisador contábil, professor da Escola Brasileira de Contabilidade - EBRACON, autor de livros de contabilidade, detentor Mérito Docência Universitária do CRCRS., ex-professor PUCRS, Unilassale e Facensa, presidente de honra da Confederação dos Profissionais Contábeis do Brasil - APROCON BRASIL, fundador e ex-presidente do SINDICONTA-RS e da APROCON CONTÁBIL-RS e responsável técnico pela Dagostim Contadores Associados (P. Alegre/RS) - salezio@dagostim.com.br.

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