O impacto dos filtros de realidade aumentada na autoimagem dos jovens
O impacto dos filtros de realidade aumentada na autoimagem dos jovens
Nos últimos anos, os filtros de realidade aumentada (RA) invadiram as redes sociais, transformando a forma como os jovens se veem e se apresentam ao mundo. De orelhinhas de cachorro a rostos suavizados com aparência "perfeita", essas ferramentas, inicialmente encaradas como diversão, hoje exercem influência direta na autoestima e na percepção corporal de milhões de adolescentes e jovens adultos. Por trás de uma selfie aparentemente inocente, existe uma poderosa tecnologia que tem remodelado padrões estéticos, gerando inseguranças e criado uma nova forma de dismorfia: o chamado “Snapchat Dysmorphia”.
O que antes era uma brincadeira virou uma lente pela qual muitos jovens passaram a se enxergar. A promessa de pele impecável, olhos grandes, nariz fino e rosto simétrico alimenta diariamente uma comparação entre o que se é e o que se mostra ser. A linha entre realidade e ideal virtual se torna cada vez mais tênue, e isso tem consequências profundas para a saúde mental. Segundo pesquisas recentes, o uso recorrente de filtros está relacionado ao aumento da insatisfação corporal, da ansiedade social e da busca por procedimentos estéticos em faixas etárias cada vez mais jovens. O desejo de parecer com a versão “filtrada” de si mesmo tem levado muitos adolescentes a recorrer a cirurgias plásticas com pedidos específicos baseados em imagens manipuladas digitalmente.
A lógica por trás dos filtros também reforça ideais estéticos restritos e eurocêntricos: pele clara, nariz afilado, lábios volumosos e ausência de marcas naturais como sardas, cicatrizes e espinhas. Isso perpetua uma imagem padronizada de beleza e reforça uma exclusão silenciosa de traços étnicos e corpos diversos, aprofundando o abismo entre representação e realidade. Jovens negros, indígenas e de outros grupos racializados muitas vezes não se veem refletidos nesses padrões artificiais, o que pode intensificar sentimentos de inadequação ou invisibilidade social.
Além disso, os filtros acabam funcionando como uma espécie de máscara emocional. Muitos adolescentes afirmam que se sentem mais confiantes com um filtro aplicado, pois ele “corrige” imperfeições que, na vida real, causam desconforto. O problema é que essa confiança passa a depender da ferramenta, criando uma relação de dependência estética. A ausência do filtro pode causar vergonha, insegurança e até mesmo evitar a exposição em fotos ou vídeos sem edições. Essa distorção na autoimagem contribui para uma desconexão com o corpo real e dificulta o desenvolvimento de uma autoestima sólida.
As redes sociais, por sua vez, alimentam esse ciclo com algoritmos que priorizam rostos embelezados e imagens visualmente agradáveis. Isso cria uma pressão implícita para que todos se adequem a esse padrão, ou corram o risco de não serem vistos, curtidos ou valorizados. Likes e comentários acabam funcionando como validação externa, muitas vezes baseada em uma imagem que não condiz com a realidade. Isso pode gerar uma sensação de fracasso e comparação constante, agravando quadros de ansiedade e depressão em jovens que ainda estão em fase de construção identitária.
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