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Por que a Copa mobiliza milhões de brasileiros?

Professor da Estácio analisa como o futebol se tornou um dos principais símbolos de pertencimento coletivo no Brasil e alerta para os limites do nacionalismo baseado apenas em símbolos

Laudir Dutra - Redação Publicado em 29 de junho de 2026 às 21:48
Por que a Copa mobiliza milhões de brasileiros?
Fonte: Mariana Bond - Usina de Notícias Foto: Divulgação
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A cada Copa do Mundo, ruas ganham bandeiras, famílias se reúnem diante da televisão e milhões de brasileiros compartilham emoções que atravessam gerações. Mais do que uma competição esportiva, o torneio representa um fenômeno social capaz de despertar sentimentos de pertencimento, identidade e patriotismo. Mas por que o futebol exerce tamanha influência na forma como os brasileiros enxergam a si mesmos e ao país?

Para o historiador Rodrigo Rainha, professor da Estácio, a resposta está ligada ao próprio processo de construção das identidades nacionais. Segundo ele, nações não são realidades naturais, mas construções históricas, políticas e culturais que precisam de símbolos capazes de gerar identificação entre pessoas que, muitas vezes, jamais se conhecerão.

Rodrigo Rainha 

"O futebol se tornou uma das linguagens mais poderosas da identidade brasileira. Ao longo do século XX, especialmente a partir da popularização do rádio e da consolidação das Copas do Mundo, o esporte ajudou a criar uma narrativa coletiva sobre quem somos, transformando vitórias, derrotas e ídolos em elementos da memória nacional", explica.

O especialista destaca que grandes eventos esportivos funcionam como espaços de representação simbólica. Neles, atletas e seleções passam a carregar expectativas e sentimentos que vão muito além das quatro linhas.

"Durante uma Copa do Mundo, milhões de pessoas experimentam simultaneamente uma sensação de pertencimento. O indivíduo que muitas vezes não se sente representado por instituições ou pela política encontra, no futebol, uma oportunidade de compartilhar emoções e se reconhecer como parte de uma coletividade", afirma Rainha.

Entre a emoção e o espetáculo

Embora reconheça a importância social do futebol, o professor alerta para o risco de reduzir a ideia de nação apenas a símbolos, imagens e manifestações ocasionais de patriotismo.

Segundo ele, a sociedade contemporânea transformou os grandes eventos esportivos em fenômenos globais de entretenimento, cercados por publicidade, redes sociais, produtos licenciados e estratégias de marketing que reforçam determinadas narrativas sobre identidade nacional.

"A emoção do torcedor é absolutamente legítima e verdadeira. O problema surge quando o patriotismo se limita ao consumo de símbolos ou quando a imagem do país passa a ser mais importante do que a realidade vivida pelos brasileiros. A camisa da seleção pode unir momentaneamente, mas não substitui os desafios relacionados à educação, à cidadania ou à redução das desigualdades", observa.

Patriotismo além das arquibancadas

Para Rainha, o patriotismo manifestado durante as competições esportivas não deve ser desprezado. Pelo contrário: ele pode representar uma importante experiência de conexão social. No entanto, o desafio está em transformar esse sentimento em compromisso com a construção de uma sociedade mais inclusiva.

"O patriotismo que aparece nas arquibancadas, nos bares e nas ruas é uma demonstração legítima de pertencimento. Mas o amor ao país não pode se limitar aos noventa minutos de uma partida. O verdadeiro desafio é transformar essa energia coletiva em responsabilidade com a vida cotidiana, com a democracia, com a diversidade e com o bem-estar da população", destaca.

A busca por um sentimento coletivo

Em um país marcado por profundas diferenças sociais, econômicas e regionais, o futebol continua sendo um dos poucos elementos capazes de reunir pessoas de origens distintas em torno de uma experiência compartilhada.

Para o historiador, esse fenômeno ajuda a explicar por que a seleção brasileira permanece ocupando um espaço simbólico tão relevante no imaginário nacional.

"A Copa do Mundo nos lembra que ainda somos capazes de sentir juntos. O desafio é fazer com que esse sentimento de coletividade ultrapasse o campo e se transforme em compromisso com a construção de um país em que mais brasileiros possam se reconhecer como parte da mesma história", conclui Rodrigo Rainha.

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